Nossa obsessão pelo lado sujo da política

Resumo: adoramos falar sobre o lado sujo da política, que nada nos acrescenta. Os grandes assuntos nacionais seguem ignorados pela mídia e pelas pessoas. Precisamos formar massa crítica se quisermos refundar o país.

Tempo de leitura: 3 minutos.

Temos que reconhecer: não sabemos falar de política! Parece contraditório que no país onde as pessoas são obcecadas com o que acontece nos corredores e gabinetes de Brasília, no dia a dia e até na vida privada dos políticos, não saibamos falar de política.

Não discutimos os grandes problemas estruturais que nos condenam a ser o eterno país do futuro. Nas conversas, nos debates, nos bares e no trabalho, nos jornais, no rádio e na TV, os assuntos que realmente importam são abordados com muita superficialidade.

Por exemplo, não sabemos como consertar nosso federalismo torto, sequer colocamos em discussão a sua necessidade. Para que servem tantos órgãos federais, estaduais e municipais, às vezes fazendo a mesma coisa? Esse federalismo de mentira acentua as desigualdades regionais e concentra ainda mais poderes na União, que se prostitui para manter estados e municípios falidos.

Não temos ideia de como sair do atoleiro fiscal em que nos metemos, mesmo sendo a nona maior economia do mundo – já fomos a quinta. As propostas de redução dos gastos públicos são assuntos endêmicos da burocracia pública que não sabemos como trazer à tona. Sem discussão transparente, as propostas não avançam e são capturadas pelas corporações defensoras dos próprios interesses, aquelas mesmas que aparatam a referida burocracia.

Sem dinheiro em caixa, não podemos fazer as necessárias obras de infraestrutura social (hospitais, escolas, regularizações urbanas) e de engenharia (estradas, ferrovias, saneamento). Investimos muito abaixo do que precisamos para tornar decente a vida de todos – por ano morrem quinze mil pessoas pela falta de saneamento no Brasil e metade dos brasileiros continua sem acesso a água tratada e redes de esgoto. Se não há recurso público, a saída é atrair capital privado mediante concessões e privatizações. Mas nem isso conseguimos fazer, devido às resistências corporativistas e preconceituosas que bloqueiam discussões honestas. Os principais empecilhos apontados pelos estrangeiros são a insegurança jurídica e a complexidade regulatória.

Alguém já viu esses temas serem debatidos com profundidade em horário nobre?

Essas são apenas algumas das razões que nos impedem de avançar nas agendas de reformas, porque não as discutimos amplamente, porque não as entendemos. As propostas que surgem simplesmente são apoiadas ou não a depender de quem é o seu autor, e não do mérito.

Tal ignorância nos puxa para baixo, faz com que nosso PIB seja gigante em volume, mas medíocre per capita; mantém o desemprego alto e crescente; impede a diminuição das desigualdades regionais e sociais (a escravidão dos séculos XX e XXI).

Esses assuntos não fazem parte da pauta editorial dos principais meios de comunicação do país, nem, talvez como causa ou consequência (ou ambas), das conversas do dia a dia das pessoas. Se não conseguimos nem articular duas sílabas sobre esses assuntos, como podemos querer que nossos escolhidos sejam capazes e engajados em remover os obstáculos do desenvolvimento?

Por outro lado, sabemos falar e escrever muito sobre politicagem. Nos interessamos sobre as chantagens, as manobras e as intrigas do poder em Brasília. Perdemos muito tempo requentando debates entre esquerda e direita, especulando quem cai e quem se mantém. Não é preciso estar na política para falar de política, pois ela faz parte do cotidiano, permeia nossas vidas. Por causa do nosso interesse exacerbado em politicagem, mas atrofiado em política, sabemos mais sobre os filhos dos últimos Presidentes do que sobre o que se passa nas escolas dos nossos filhos. Sabemos mais sobre o que acontece nos corredores dos Palácios da Alvorada e do Jaburu do que nos nossos próprios condomínios.

A politicagem é o reality show da política: não acrescenta nada à nossa vida

A politicagem é o reality show da política: não acrescenta nada à nossa vida, prende nossa percepção em futilidades e desvia a atenção das coisas importantes. Uma cortina de fumaça tóxica, que nos hipnotiza e paralisa, mantendo o status quo. Somos sugados por uma espiral de notícias sensacionalistas que polarizam nossas visões distintas de mundo, gerando o caos nos núcleos pessoais.

O gosto pela politicagem personaliza o poder em uma ou duas pessoas, transformando nossa República Federativa em Império. É exatamente isso o que querem seus fomentadores, nos tornar massas de manobra que dão votos a quem grita mais alto. E assim vamos vivendo, acreditando que um dia um iluminado nos salvará da nossa própria desgraça.

Precisamos refundar o país, com novos arranjos jurídicos e estruturas institucionais modernas, adaptadas às nossas realidades e necessidades. Para isso, é necessário formar massa crítica na população, nos meios de comunicação e nas autoridades que decidem. Os escândalos da politicagem, principalmente quando envolvem casos de polícia, devem ser divulgados e discutidos, mas não podem monopolizar a pauta, como ocorre aqui desde pelo menos 2013. Precisamos começar a falar de política de verdade; é isso o que nos fará grandes e nos levará ao almejado futuro.

Publicado por SOS Brasil

Inconformado com o que o país se tornou e cético de que tudo um dia será melhor se não fizermos um pouco cada um de nós.

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