Expresso 2022

Se havia otimismo na primeira metade, considerando as indicações técnicas para alguns Ministérios no início do novo Governo Federal, esvaziou-se com a pandemia do covid-19.

O desprezo com tudo que não seja do seu próprio interesse e o temperamento colérico de quem acha que chegou ali por méritos próprios trataram de desiludir quem apertou o 17 em 2018 como opção desesperada para evitar a continuidade do 13.

Agora que a ficha caiu, o que fazer?

2020 foi comprometido com a pandemia. Temos que mirar em 2022 para termos melhor condição de escolher – lembrando que o alvo é móvel e a classe política não fará nenhum esforço para facilitar a escolha dos eleitores.

Onde estão as prometidas reformas política e administrativa? Do jeito que estão se comportado nesta crise, esturricando o que já está frito, farão de tudo para evitar que nas próximas eleições não tenhamos opções e tudo continue no processo antigo de manutenção do status quo favorável a uma minúscula parcela de brasileiros.

Os partidos atuam descolando os candidatos de suas bases representativas e frustrando iniciativas reformistas. São como os presídios, ninguém sai melhor do que entrou.

A prestação de contas da classe política é pífia, limitando-se a procedimentos burocráticos muitas vezes bloqueados pelo corporativismo.

Os partidos concorrem apenas para ver qual deles oferecerá o candidato mais comprometido com “o grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”. Quem duvida, basta lembrar do descaso dos governos anteriores com a corrupção, o saneamento, a insustentabilidade fiscal dos Municípios… Descasos que corroem o orçamento, matam milhares de pessoas e mantêm as necessidades locais reféns de emendas parlamentares, nos enterrando cada vez mais fundo no poço da desigualdade.

O gosto pelo sensacionalismo alimenta o mau político. Quem não tem boas ideias transforma o palco em circo ou ringue, aproveitando-se da ignorância alheia para se manter no poder. O importante é estar nas manchetes – “falem mal mas falem de mim” –, afinal, eleitor tem memória curta. E os fomentadores do sensacionalismo também se beneficiam, pois político bom não dá Ibope.

Pior do que a opinião pública apontar para um único canto da Praça dos Três Poderes, o que mais preocupa é a sensação de que os outros Poderes e esferas de governo foram esquecidos e agora posam de bacanas. Até parece que o país era uma maravilha antes e que o Legislativo, o Judiciário, os Estados e Municípios são inocentes. Até parece que se nada mudar os próximos governos salvarão o país.

Bolsonaro não fez muito pior do que teriam feito os outros candidatos. Com exceção dos incógnitos novatos, todos se sairiam péssimos por serem egressos de um sistema político corrompido e comprometido até o pescoço. Qualquer fruto dessa árvore nasceria podre, pois a árvore está morta. Não adianta adubar e torcer para que a próxima safra ofereça frutos saudáveis; é preciso derrubá-la, arrancar as raízes, esterilizar o buraco e plantar uma nova muda, que deverá ser regada e cultivada diariamente. Só assim as próximas estações poderão dar frutos melhores.

Não podemos depender da vontade dos Poderes, seja para uma resposta imediata nas próximas semanas, seja para as opções que serão dadas em 2022.

É preciso formar massa crítica política de baixo para cima, e para isso temos que abandonar nosso gosto por assuntos inúteis. Nos preocupamos mais com as notícias da politicagem do que sobre política de verdade: os temas profundos que podem mudar o rumo do país e da sociedade. Talvez porque as consequências daquelas são imediatas e tangíveis, enquanto destas são abstratas, às vezes invisíveis.

Precisamos descortinar a verdadeira política e discutir os reais problemas desse país. Adianta nesse momento apontar culpados? Se quisermos ingressar nessa cruzada, teremos que ser justos e assumir que somos todos culpados, inclusive eu e você.

Tudo de ruim que está acontecendo é sintoma de um mal maior, que não será sanado pelas forças ocultas de Brasília. Focar nas consequências dos problemas é enxugar gelo, temos que encontrar forças e unir inteligência para identificar as causas. Nenhum país foi refundado por livre e espontânea vontade dos governantes.

Esse é o primeiro passo para que o poder possa ser efetivamente exercido por quem o detém, e não por quem chegou até ele pelas vias tortuosas de um sistema carcomido.

Publicado por SOS Brasil

Inconformado com o que o país se tornou e cético de que tudo um dia será melhor se não fizermos um pouco cada um de nós.

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